quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Tenho em mim uma sede de amor insaciável. Carência sobra, vem de mansinho e faz daqui moradia. Em determinadas épocas tenho explosões de desespero e insensatez. Olhos transformam-se em lunetas procurando uma estrela para acompanhar. Estrela para nunca alcançar. Dormir é tormento, ficar acordado também. São tempos infelizes, numa busca incessante por um porto seguro para atracar. Nem preciso relembrar quantas situações gêmeas já foram vividas. Mas nunca tive a habilidade de aprender com erros passados. E creio que nunca a terei. Frutos de uma insatisfação eterna, incurável, insuportável. Desejando sem limites e fazendo muito pouco para ter. Aguardando do destino um prêmio por tanto sofrimento, nem sempre justificável. Quem sabe de si é que sabe de suas dores. Da vida que lhe assedia constantemente, depois oferece um abraço embaixo do cobertor. Dos segredos tão indignos e do coração ermo. O soçobro sentimental e o esfacelamento gradativo da alma. Cada ser detentor da infeliz humanidade possui suas próprias libações e sacrifícios. E só me resta aceitar minha própria constante, essa necessidade afetiva patológica.

esperança

quebraram-lhe braços e pernas, e todo o resto
deram-lhe uma droga de anestésico
queria morfina
oportunistas proliferando-se como vermes
sanguessugas disfarçados
não mais fizeram questão de dissimular
inerte, em coma induzido
destrincharam a carne, comeram enquanto viva
profanaram seu sangue
esquecida no leito de morte
saíram em busca de mais uma vítima
o ditado estava errado
ela não é a última que morre

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Tenho essa mania platônica de me apaixonar por desconhecidos. Encantar-me pela imagem que eu mesma inventei de alguém. É tão gostoso passar horas desenhando seus gostos, personalidade e gestos. É o homem de barba bonita que entra no ônibus, a cantora de óculos escuros, o garoto de fones nos ouvidos. O músico que fica de olhos fechados durante quase toda a apresentação, a menina de blusa florida, o cara de botas. O poeta, o ator, o senhor de paletó. A voz no telefone, o homem de farda, a garota do cabelo de fada. Alguns, vejo ocasionalmente, outros nunca mais. Compartilho apenas meia dúzia de palavras, ou olhares. Isso tudo é um tanto solitário, confesso. Mas preenche esse meu tempo - coração - tão vazio.

domingo, 9 de outubro de 2011

deixa a noite assim, 
com gosto de ácido e ouvidos zunindo. 

deixa amanhecer assim, 
com um cigarro na janela. 

deixa viver assim, 
olhando esse azul pelo retrovisor.

sábado, 8 de outubro de 2011

cerol

Era o menino e a pipa
Fez com esmero e desejo
Pintou, bordou, deu-lhe um beijo
Rabiola bonita, colorida
Foi pro quintal, jogou-a no ar
O Sol ofuscava, não enxergou
No céu várias pipas
E com linha cortante partiram seu sonho
A pipa caiu, o menino chorou
Ficou explicado esse inferno de vida

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

não regaram a flor

vestida para a batalha
o suor escorrendo entre pele e armadura
vida na defensiva, direção ofensiva
tirou a proteção, vestiu um cigarro
tomou um gole amargo
provou salgado demais, sofrido também
sonhou estrelas
ganhou segundo plano, segunda pele, segunda vez
praguejou, mentiu, esperou um pedido
esperou todos os dias
esperou verdade depois do conhaque
depois da transa, depois do trago
chorou e morreu por falta de água